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Shhhh

Silêncio.

A poeira dos séculos - Parte 33

Passaram muitos anos. O nosso heroi conserva nos pés a poeira dos séculos e a distância de muitos mundos. Não se encontra mais na sede dos dias fossilizados, foi por aí, perdeu-se em todos os Aeroportos que encontrou em conversas com mumias feitas de alcatifa beije achocolatado, daquele mista-mista. Sim, porque tudo pode ser resumido a um sabor de café, cappucino, caffé latte, café da moka, café pre... afro-americano, café com canela, café sem canela, café com açucar, café com mais açucar, café panilas com adoçante, café com cheirinho e barriguinha, café oriental para meditar, café para fazer cócó, e daquele café que ofende porque é mal educado e traz bagaço.
O nosso heroi, no entanto, decidiu intitular-se... café vertigem, daquele que enjoa, que entorna, que enche os sentidos, que não se importa de ser inspiração ou simplesmente um vómito de palavras concentrado e com pouco sentido. O tipo do café Vertigem, aquele que não gosta de juízos de valor, mas que abre excepções a todos os princípios e deixa uma porta dos fundos em todos os fins que encontra, mais uma fuga, mais um continente. Mais café, mais prosa.

(to be continued, in another airport)
  

 

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Transeunte

Quanto tempo dura um suspiro inanimado?
que voz que se afunda no infinito?
que corpo dormente e exilado nos pensamentos
se torna invisivel e caminha... novamente

atravessa paredes
e vê-se num reflexo

aberto

e

é esquecido. Outra vez.


 
 

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O discurso perdido

Há uma voz que
se tornou muda.

um diálogo interrompido que se mutou no silêncio que era na verdade, um vacuo absoluto de perguntas e pensamentos trocados entre duas personagens.

Quanto silêncio valerá um instante de lucidez e partilha mutua do mesmo lugar, da mesma hora, do mesmo desejo. Quanto tempo dura um instante perdido na mente de dois amantes?

Há uma voz que
se perdeu. Um vazio mudo transpirado pelas paredes e pelo chão.

E assim adormeci, com o ouvido encostado ao chão frio, à espera que o tecto caisse e as paredes se abatessem como um castigo de Deus para aqueles que se entregam às cumplicidades éfemeras e à lotaria do destino acreditando que uma chance é sempre melhor do que nenhuma.

Há um discurso que se perdeu, uma frase interrompida, um desertar dos sonhos, um adormecer dormente fundido nas paredes frias de uma sala vazia.

Reentré

Sem cor
para não acordar ninguém

muito


devagarinho



regresso





sem comentários.
"Eventually, all of this would pass.

And the memory of it would give way

to embellishment
and fantasy
and outright distortion

until it was hard to Hal Hefner to remember

what he was really like back then.

When he still carried in his head the sound of a made up perfect voice,
the voice that he could speak its heart
the voice he used to wish he had,
until the day he stopped wishing he sounded like anyone else,

and just started talking as he was."

in Rocket Science (The movie)

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Black Magic Woman

Conservei regularmente um conceito próprio de sonho, desde que me recordo de ter recordado coisas.

Uma ideia sobrenatural que contêm um poder de se materializar, um desejo condicionador de comportamentos, atitudes, actos irreflectidos que inequivocamente conduzem à sua concretização, se forem suficientemente fortes. Uma conspiração do Destino, sujeito ao supremo poder da projecção de realidades paralelas, duradoras, concorrentes, desejáveis.

Sim, um conceito próprio.

Sinceramente acho que não podia ser de outra maneira, como posso realmente saber se as outras pessoas querem algo com a força esmagadora que por vezes se reflecte nos meus actos e nos meus desejos? Certamente ninguém pode querer mais os meus sonhos do que eu, não consigo sequer conscientemente apagar em mim um traço desse mundo bem mais vasto do que aquele em que respiramos.

Não apaguei nada, estou mudo, e carrego mundos dentro de mim.

Mas esta noite foi diferente. Um sonho falou comigo enquanto dormia, cantei para ela por breves instantes.

Não há explicação para o que é, existir é uma verdade absoluta. Logo não me alongo nos significados. Este sonho era diferente, tanto que nem o reconheci como tal, era... uma imagem do passado, com cheiro, toque e voz. Tinha consciencia, não conversou comigo, mas senti-a. Vinha do passado, e estava ali, adormecida debaixo de um cobertor no chão, pobre e intíma. Os sonhos têm a capacidade de se materializar, bem como de se desmaterializar em sentido inverso e regressar a um recanto bem profundo da nossa alma disfarçados de recordações. Era onde este estava ontem à noite, e falou comigo.


Estou diferente, não me recordo do atalho que segui algures na minha vida passada para chegar um posto oposto daquilo que julgava ser. Só pode ser um atalho, senão for, como é possível que me tenha transformado de poeta livre e apaixonado em advogado programado e calculista?

Um mestre de pantominas ainda reconhece a sua própria sombra?

O Mapa

Pareces-me perdida de mim. Vou desenhar-te um mapa.

Atravessa esse muro de silêncio. Observa, não é sólido.
Eu sei, agora ouves muitas vozes, muitos sons, mas concentra-te num só
O dos teus pés, esse caminhar rítmico da tua própria ânsia,
esse pulsar de paixão e saudade que te faz partir em primeiro lugar.

Para onde? Para o mar, como todos os rios,
até te diluires com o sal em todas as praias do mundo
e banhares a encostas da incerteza com uma maré
de sonhos aveludados anunciados por um anjo
de faces azuis e ondas em vez de sorrisos.

Quando perceberes que estás a voar aos círculos,
abrandarás, e morrerás na dúvida e na espiral
te recolhe e embala... lentamente
para o sono abraçado da minha ausência
aceitando o fim e descansando na areia quente
da minha praia.

Estarás em casa.

Vá... não desanimes
tenta perceber
que o mundo
não é feito de peças que se encaixam
ou de mapas do tesouro
nem existe por ter uma razão de ser.
Ele é feito de pensamentos,
de vontade,
e de gestos constantes na ansiedade velada.

Mas não te enganei,
eu sempre vivi nos sonhos que semeio,
nas planícies desertas que estendo à minha volta,
nas formas das nuvens que vês deitada na relva,
no cheiro a humidade desse barro sinuoso que é a imaginação,
percorrendo com respostas a mão que escreve.

Eu vivo
dentro de ti.

O início será assumir,
o fim foi esquecimento.

Clarinete

A ultima recordação que guardo é um odor fresco e a recordação da tua mão. Por mais estranho que pareça, recordar alguém através de um pedaço de corpo inanimado, contendo todas as cicatrizes e sinais do que, ao longo de um caminho apaixonadamente vivido ficou para trás.

Será que do nosso abandono ficará o leve sussurrar de um gesto, um dia, um aroma, uma palavra escrita que com o passar dos anos ganha vida própria e um significado que mais ninguém entende ? É isso morrer ?

Será que me sento todos os dias e converso contigo simplesmente porque... não estás aqui ? Eu sei, estás... neste preciso momento... a interrogar-te do mesmo.

Não morreste, nem eu, a nossa propria solidão é o anunciar da morte desse sujeito plural, Nós. Esse longo e distante lamentar de conversas a sós com uma miragem do ente querido, um exílio de separação onde, suspensos noutra dimensão criamos dentro das palavras e do querer a figura cada vez mais incompleta de quem sentimos saudade.

Tambem penso em ti, todos os dias. Mas perdoa-me por não responder às tuas perguntas, duvido que o desenrolar de eventos dê resposta a essa necessidade permanente de me ter completo no vislumbrar de saudade que às vezes te assalta. Somos seres incompletos quando habitamos na memória e no leve ardor dos lábios imóveis, é inútil recordar.

Há dias em que a poesia se escreve sozinha nos gestos e nos olhares de duas pessoas. Momentos em que até o mais talentoso dos poetas se envergonha perante a simplicidade com que a vida nos seduz e embriaga.
 
Não houve um beijo sequer, não... aconteceu algo muito mais forte. Não consigo escrever sobre o assunto, mas não podia deixar de raspar algo na casca desta arvore, estive aqui, senti-me sereno, vivi.

Isto não é um poema.

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Aug. 29th, 2007

Uma visão revelou-me o mundo nú
em que o caminhar aveludado dos dedos
é comparável à incerteza da mão do poeta.

Revelei-me tocável
e possuído pelo ruído do sonho
vou discordando do mundo.

Recordo.

Pestanejo.
Um azul imenso inunda os sentidos e cega-me.
Depois, reabro lentamente 
e brinco com o tempo

abrando tudo

até ouvir o ar preenchendo os espaços
em que tu, suave criança
desenhavas longas e sinuosas elipses de prazer
sobre a matéria deque  as memórias são feitas.

Esse delicado papel de parede
dedilhado em suaves paisagens de inocência incessante
de estrelas incandescentes
simulando o sorriso intermitente de insensatez 
na deliciosa curva
da tua pele.

Morre agora e jaz perfeita
no teu túmulo 
libelula efémera, foste linda.